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xyzbim.eu / pesquisa / carbono-bases · estudo · 2026-09-03

O mesmo material vale conforme a base de dados — mas a culpa não é das bases

Estudo comparativo entre três bases de dados gratuitas de carbono incorporado — ICE (Reino Unido), KBOB (Suíça) e ÖKOBAUDAT (Alemanha) — par a par, por kg, módulos A1–A3, replicável por scripts. Conclusão em uma frase: para a mesma rota de fabrico as bases convergem (−6%); para rotas diferentes divergem 2,4× dentro da mesma base. Escolher um fator de carbono é escolher uma cadeia de fornecimento. Nasce do dossiê do passaporte digital de produtos.

bases comparadas3 ICE · KBOB · ÖKOBAUDAT
aço EAF, ICE vs KBOB−6% mesma rota, bases independentes
aço UK vs EAF, dentro da ICE2,4× rotas diferentes, mesma base
pares analisados6+2 6 ICE×KBOB + 2 triangulações OBD
literatura de apoio10 papers com DOI (2011–2025)
Veredito — as bases estão de acordo; os produtos é que são diferentes. No par mais sensível à rota de fabrico (aço de armadura), duas bases independentes (ICE Educational e KBOB) dão o mesmo valor dentro de ±6% quando a rota é a mesma (forno elétrico com sucata, europeu) — e o genérico alemão da ÖKOBAUDAT (1,57 kg CO₂e/kg) senta-se exatamente entre o EAF (0,73–0,77) e a média britânica de alto-forno (1,72), onde uma rota mista deve estar. A variação que assusta nos números de carbono não é «erro de base»: é geografia e processo. A consequência prática — para o passaporte digital e para quem especifica — é que cada valor precisa de rastreabilidade: fonte, versão, unidade e rota.

1 · Pergunta e hipóteses

Desenho: comparação controlada, par a par, com critérios de inclusão fixados antes de olhar para os resultados.

Pergunta: quando duas pessoas calculam o carbono incorporado (A1–A3) do mesmo material com bases públicas diferentes, a diferença mede erro das bases ou diferenças reais de cadeia de fornecimento?

H1 (convergência intra-rota): mesmo material + mesma rota de fabrico + geografia comparável → bases independentes convergem (±15%). · H2 (divergência inter-rota): rotas diferentes → a variação dentro da mesma base excede a variação entre bases para a mesma rota. · H0: as diferenças entre bases são aleatórias relativamente à rota.

2 · Metodologia

Fontes com versão registada, extração programática (scripts no fim), normalização por kg, exclusões registadas em vez de ocultadas.

baseversãoacessolicença
ICE Database (Circular Ecology, UK)Educational V5.0 (Jun 2026)xlsxeducacional (expira 30.06.2028) — estudo comparativo
KBOB (governo suíço)Ökobilanzdaten im Baubereich V9.0xlsx oficialpública
ÖKOBAUDAT (governo alemão)API REST, datastock geral, consulta 03.09.2026JSONpública

Critérios de inclusão (pré-registados): indicador GWP-total, módulos A1–A3 (somando A1+A2+A3 quando publicados separados); normalização por kg CO₂e/kg; pares com unidade declarada ambígua são excluídos e registados — excluímos o «Facing brick» genérico da OBD (555,2 kg CO₂e com unidade implícita não identificável) e todos os produtos de fabricante declarados por peça ou m². Exceção documentada: betão — KBOB declara por kg, a OBD por m³ implícito; conversão com a densidade KBOB (2 300 kg/m³), declarada como pressuposto.

3 · Resultados

Esquerda: ICE × KBOB (ambos por kg). Direita: triangulação ÖKOBAUDAT nos dois materiais-âncora.

material (kg CO₂e/kg, A1–A3)ICEKBOBΔrota comparável?
Betão estrutural (geral)0,1030,089+17%sim (médias nacionais UK/CH)
Aço varão — EAF reciclado0,730,773−6%sim (EAF Europa)
Aço varão — média UK (alto-forno)1,720,773 (EAF/CH)+123%não
Madeira maciça resinoso (s/ armaz. carbono)0,2630,134+96%parcial (secagem/processo)
Lã de vidro1,531,04+47%parcial
Tijolo cerâmico comum0,2130,254−16%sim
triangulação ÖKOBAUDAT (genéricos)OBDleitura
Varão B500B (A1+A2+A3)1,574 /kgentre o EAF (0,73–0,77) e a média UK (1,72) — posição intermédia coerente com rota mista alemã/europeia
Betão C30/37 (A1–A3)257,7 /m³vs KBOB 0,089 × 2 300 = 204 /m³ → +26%

Leitura. H1 confirmada no caso crítico: a dispersão intra-rota (±6%) é uma ordem de magnitude menor que a inter-rota (2,2×). H2 confirmada: dentro da própria ICE, o varão UK vs EAF difere 2,4× — mais do que qualquer diferença entre bases para a mesma rota. H0 rejeitada no aço. Betão (+17/+26%) e tijolo (−16%) — materiais pesados, médias nacionais — convergem razoavelmente. Madeira (+96%) e lã de vidro (+47%) — onde a contabilização biogénica, a secagem e os limites de sistema variam mais — divergem por variáveis processuais, não espaciais.

4 · O que a literatura já sabia (e o que este estudo acrescenta)

Dez papers com DOI posicionam o resultado — a variação entre bases é um problema documentado; isolar o efeito da rota é o acrescento deste estudo.

«Reported results display large unjustifiable variations»; o framework de variáveis inclui «spatial disparities» e «procedural inconsistencies» — 244 estudos de caso normalizados. «A systematic investigation into the methodological variables of embodied carbon assessment of buildings», Renewable and Sustainable Energy Reviews, 2021 · doi.org/10.1016/j.rser.2021.110840
«LCA method and for instance geographical location are incompatibilities also revealed in embodied energy and embodied carbon assessments.» «Embodied energy and embodied carbon of structural building materials: Worldwide progress and barriers», Energy and Buildings, 2020 · doi.org/10.1016/j.enbuild.2020.110612

Completam o panorama: a referência clássica genérico↔específico (Int. J. LCA, 2015), a revisão de 401 citações sobre a falta de consenso na prática (Energy & Buildings, 2017), a harmonização internacional em curso (IEA EBC Annex 72), a comparabilidade de EPDs (J. Cleaner Prod., 2011) e as revisões de dados existentes (2012) e de isolantes (2021). O acrescento deste estudo é a demonstração controlada de que, no material mais sensível à rota, a variação entre bases para a mesma rota é menor que a variação entre rotas dentro da mesma base — replicável por scripts, com as três bases gratuitas.

5 · Limitações (todas)

  1. n pequeno (6 pares + 2 triangulações), curado — não sistemático; a seleção pode enviesar.
  2. Versões pontuais (Jun 2026 / V9.0 / consulta de um dia) — sem dimensão temporal.
  3. ICE Educational: licença educacional; estes valores servem estudo comparativo — o trabalho comercial de dados usa só fontes públicas sem restrição (KBOB, ÖKOBAUDAT, EPDs).
  4. Unidades implícitas na OBD para genéricos — conversões declaradas como pressupostos.
  5. Contabilização biogénica não harmonizada (madeira) — causa provável do +96%.
  6. Um autor; extração automática sem verificação independente (os scripts públicos compensam em parte).

6 · Conclusão e implicação prática

Três conclusões. (1) Para o mesmo produto e rota, as bases públicas concordam — pode confiar-se nelas desde que se declare fonte, versão, rota e unidade. (2) A variação dominante é de rota e geografia, não de qualidade das bases: escolher um fator de carbono é escolher uma cadeia de fornecimento. (3) Para o passaporte digital de produtos, o requisito operacional não é «uma base oficial» mas rastreabilidade por propriedade — é por isso que o conector epd_lookup.py (disponível com este estudo) emite cada valor com fonte, UUID, versão, unidade e módulo.

Ferramentas deste estudo, para usar já: medidor de prontidão para o passaporte (carrega um IFC, vê o que falta) · dossiê passaporte digital de produtos (leis, normas, cronologia, 893 papers)

Replicação: parse_ice.py + epd_lookup.py (extração ICE/KBOB/ÖKOBAUDAT) e os JSON de auditoria em workspace/pesquisa-passaporte-digital/ — nada deste estudo é número de segunda mão.