Estudo comparativo entre três bases de dados gratuitas de carbono incorporado — ICE (Reino Unido), KBOB (Suíça) e ÖKOBAUDAT (Alemanha) — par a par, por kg, módulos A1–A3, replicável por scripts. Conclusão em uma frase: para a mesma rota de fabrico as bases convergem (−6%); para rotas diferentes divergem 2,4× dentro da mesma base. Escolher um fator de carbono é escolher uma cadeia de fornecimento. Nasce do dossiê do passaporte digital de produtos.
Desenho: comparação controlada, par a par, com critérios de inclusão fixados antes de olhar para os resultados.
Pergunta: quando duas pessoas calculam o carbono incorporado (A1–A3) do mesmo material com bases públicas diferentes, a diferença mede erro das bases ou diferenças reais de cadeia de fornecimento?
H1 (convergência intra-rota): mesmo material + mesma rota de fabrico + geografia comparável → bases independentes convergem (±15%). · H2 (divergência inter-rota): rotas diferentes → a variação dentro da mesma base excede a variação entre bases para a mesma rota. · H0: as diferenças entre bases são aleatórias relativamente à rota.
Fontes com versão registada, extração programática (scripts no fim), normalização por kg, exclusões registadas em vez de ocultadas.
| base | versão | acesso | licença |
|---|---|---|---|
| ICE Database (Circular Ecology, UK) | Educational V5.0 (Jun 2026) | xlsx | educacional (expira 30.06.2028) — estudo comparativo |
| KBOB (governo suíço) | Ökobilanzdaten im Baubereich V9.0 | xlsx oficial | pública |
| ÖKOBAUDAT (governo alemão) | API REST, datastock geral, consulta 03.09.2026 | JSON | pública |
Critérios de inclusão (pré-registados): indicador GWP-total, módulos A1–A3 (somando A1+A2+A3 quando publicados separados); normalização por kg CO₂e/kg; pares com unidade declarada ambígua são excluídos e registados — excluímos o «Facing brick» genérico da OBD (555,2 kg CO₂e com unidade implícita não identificável) e todos os produtos de fabricante declarados por peça ou m². Exceção documentada: betão — KBOB declara por kg, a OBD por m³ implícito; conversão com a densidade KBOB (2 300 kg/m³), declarada como pressuposto.
Esquerda: ICE × KBOB (ambos por kg). Direita: triangulação ÖKOBAUDAT nos dois materiais-âncora.
| material (kg CO₂e/kg, A1–A3) | ICE | KBOB | Δ | rota comparável? |
|---|---|---|---|---|
| Betão estrutural (geral) | 0,103 | 0,089 | +17% | sim (médias nacionais UK/CH) |
| Aço varão — EAF reciclado | 0,73 | 0,773 | −6% | sim (EAF Europa) |
| Aço varão — média UK (alto-forno) | 1,72 | 0,773 (EAF/CH) | +123% | não |
| Madeira maciça resinoso (s/ armaz. carbono) | 0,263 | 0,134 | +96% | parcial (secagem/processo) |
| Lã de vidro | 1,53 | 1,04 | +47% | parcial |
| Tijolo cerâmico comum | 0,213 | 0,254 | −16% | sim |
| triangulação ÖKOBAUDAT (genéricos) | OBD | leitura |
|---|---|---|
| Varão B500B (A1+A2+A3) | 1,574 /kg | entre o EAF (0,73–0,77) e a média UK (1,72) — posição intermédia coerente com rota mista alemã/europeia |
| Betão C30/37 (A1–A3) | 257,7 /m³ | vs KBOB 0,089 × 2 300 = 204 /m³ → +26% |
Leitura. H1 confirmada no caso crítico: a dispersão intra-rota (±6%) é uma ordem de magnitude menor que a inter-rota (2,2×). H2 confirmada: dentro da própria ICE, o varão UK vs EAF difere 2,4× — mais do que qualquer diferença entre bases para a mesma rota. H0 rejeitada no aço. Betão (+17/+26%) e tijolo (−16%) — materiais pesados, médias nacionais — convergem razoavelmente. Madeira (+96%) e lã de vidro (+47%) — onde a contabilização biogénica, a secagem e os limites de sistema variam mais — divergem por variáveis processuais, não espaciais.
Dez papers com DOI posicionam o resultado — a variação entre bases é um problema documentado; isolar o efeito da rota é o acrescento deste estudo.
Completam o panorama: a referência clássica genérico↔específico (Int. J. LCA, 2015), a revisão de 401 citações sobre a falta de consenso na prática (Energy & Buildings, 2017), a harmonização internacional em curso (IEA EBC Annex 72), a comparabilidade de EPDs (J. Cleaner Prod., 2011) e as revisões de dados existentes (2012) e de isolantes (2021). O acrescento deste estudo é a demonstração controlada de que, no material mais sensível à rota, a variação entre bases para a mesma rota é menor que a variação entre rotas dentro da mesma base — replicável por scripts, com as três bases gratuitas.
Três conclusões. (1) Para o mesmo produto e rota, as bases públicas concordam — pode confiar-se nelas desde que se declare fonte, versão, rota e unidade. (2) A variação dominante é de rota e geografia, não de qualidade das bases: escolher um fator de carbono é escolher uma cadeia de fornecimento. (3) Para o passaporte digital de produtos, o requisito operacional não é «uma base oficial» mas rastreabilidade por propriedade — é por isso que o conector epd_lookup.py (disponível com este estudo) emite cada valor com fonte, UUID, versão, unidade e módulo.
Replicação: parse_ice.py + epd_lookup.py (extração ICE/KBOB/ÖKOBAUDAT) e os JSON de auditoria em workspace/pesquisa-passaporte-digital/ — nada deste estudo é número de segunda mão.