A escala 100–500 é uma boa língua comum e uma má cláusula contratual. Este ensaio junta o que a literatura e a indústria já documentaram — e a razão por que a ISO 19650 a substituiu pelo nível de necessidade de informação (EN 17412-1): granularidade por elemento e finalidade, e documentação com lugar no contrato. Continuação natural de «o que é LOD».
Em uma frase: o LOD condensa a necessidade de informação de um elemento num único número — e é exactamente isso que falha: o número não diz para que uso a informação é precisa, não se valida por máquina e não tem lugar para documentação. A resposta da norma europeia chama-se LOIN (Level of Information Need, EN 17412-1, adotada pela ISO 19650): uma especificação por elemento e por finalidade, em três componentes — geometria, alfanumérico e documentação.
Duas linhagens partiram do mesmo problema e chegaram a sítios diferentes: a americana empurrou a escala (AIA → BIMForum); a europeia abandonou-a (PAS 1192-2 → ISO 19650).
«In contrast to the LOD specification proposed by BIMforum and other industry guidance, the LOIN standard deliberately refrains from defining explicit levels.» Tomczak, v. Berlo, Krijnen, Borrmann & Bolpagni (2022), DOI 10.1088/1755-1315/1101/9/092024 — a norma europeia recusa níveis explícitos de propósito
«LOD 300» aplica-se a um elemento, mas as necessidades de informação não vivem por elemento: vivem por elemento × finalidade. A mesma porta precisa de geometria fina para coordenação, de propriedades completas para gestão do ativo, e de quase nada para um estudo de massas. A escala obriga a escolher um número médio — e um número médio significa sobre-modelação nuns usos e sub-informação noutros. A literatura é clara:
«These different levels are not always compliant, they are not yet standardized, and they are subject to interpretation. […] It does not allows to identify relevant information according to product requirements and consequently to BIM uses.» Tolmer, Castaing, Diab & Morand (2017), Visualization in Engineering 5:21
Há ainda uma questão que a escala esconde inteira: que objetos existem no modelo, de todo — a fachada é um elemento ou parede + isolamento + revestimento? Tolmer et al. chamam-lhe abstração e propõem torná-la explícita (com empréstimo da linhagem CityGML, Biljecki et al. 2014); o LOIN responde-lhe na prática ao especificar por objeto e finalidade.
Um requisito «LOD 300» pode ser conferido como rótulo — está lá escrito 300? — mas não como estado:
«It can be verified whether the value is 200, 300 or 400, but it cannot be automatically validated if the state would not change since the computer is only aware of the current location.» Tomczak et al. (2022), mesma revisão — o LOD é um rótulo semântico, não um critério de aceitação automatizável
É a razão por que a buildingSMART criou o IDS (Information Delivery Specification): requisitos em forma legível por máquina — «todas as IfcDoor têm de ter a propriedade X com valor Y» — validáveis contra o IFC sem opinião. Um LOD nunca será isso; um LOIN com propriedades explicitadas, sim.
A escala 100–500 descreve o modelo; mas grande parte do que se troca num projeto não é modelo — são desenhos, memórias de cálculo, certificados, manuais. No LOD, a documentação não tem um lugar no contrato: ou se ignora, ou se apêndice fora da lógica dos níveis. No LOIN é um dos três componentes, avaliado por elemento e finalidade: a porta corta-fogo para gestão do ativo precisa de certificado e manual de manutenção — e isso escreve-se no requisito, ao lado da geometria e das propriedades. É a diferença entre escalar a documentação com o uso ou a improvisar à margem.
O LOD não é inútil: é a língua franca que um cliente e um fornecedor reconhecem numa reunião de arranque, e a BIMForum mantém-na atualizada. O erro é promovê-lo a cláusula. Um caderno de encargos sério não pergunta «que LOD?»; pergunta, por elemento e por finalidade, que geometria, que propriedades e que documentação — e aceita que a resposta seja granular: exige documentação completa onde há gestão de ativo, e geometria simbólica onde ela chega. A escala 100–500 não tem sequer onde escrever isso. O LOIN tem — foi desenhado para isso: a EN 17412-1 descreve a geometria em cinco aspectos (detalhe, dimensionalidade, localização, aparência, comportamento paramétrico), o alfanumérico como propriedades, e a documentação como componente de pleno direito. E com o IDS da buildingSMART, o que o LOIN especifica pode ser conferido por máquina contra o IFC.
O dado já publicado aqui diz tudo: em 1 059 documentos de 705 concursos de arquitetura (2010–2026), lidos na íntegra, zero citam LOD (meta-concurso [medido]). O mercado português nunca contratou com LOD — e as NP EN ISO 19650 (publicadas em maio de 2025) já falam de nível de necessidade de informação, não de LOD. Quando o vocabulário chegar aos cadernos — os pilotos de 2027 e a obrigação de 2030 vão trazê-lo — pode chegar pela norma, não pela importação de um hábito americano já superado na Europa. O texto de EIR que este coletivo publica no meta-concurso segue essa linha: LOIN por intercâmbio, sem LOD genéricos [medido].
Um número por elemento não diz para que finalidade a informação é precisa, não se valida por máquina e não tem lugar para documentação. Serve para conversar; falha como especificação.
Não. Continua a ser a língua comum que o mercado reconhece (a spec BIMForum segue atualizada, edição 2025). A posição razoável: LOD para conversar, LOIN para contratar, IDS para verificar.
Nível de necessidade de informação (EN 17412-1): especificação por elemento × finalidade com três componentes — geometria (5 aspectos), alfanumérico e documentação. A novidade é a granularidade: pode exigir-se documentação completa e geometria simbólica para o mesmo elemento, conforme o uso.
Por par elemento×finalidade, em três colunas: geometria exigida, propriedades exigidas, documentação exigida. Mais verboso que «LOD 300», mas exigível, medível e sem sobre-modelação por medo.
Com nenhum dos dois, por enquanto: 0/1059 documentos de concursos citam LOD. As NP EN ISO 19650 (maio 2025) já falam LOIN — quando o vocabulário chegar, chega resolvido a favor do LOIN.
O BEP99 audita planos de execução BIM cláusula a cláusula e diz o que falta — incluindo onde um caderno pede LOD genérico em vez de necessidade de informação por uso. Corre no browser.
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