Quando se pede mais construção para baixar o preço das casas, falta quase sempre a segunda metade da frase: quantas casas, e baixar quanto. Esta página faz essa conta com um número medido em Portugal, a resposta dos preços ao parque habitacional medida concelho a concelho por Ribeiro, Vilares e Carvalho (2025), e mostra cada passo. Não é uma previsão: é aritmética sobre um estudo publicado, com o que ele deixa de fora dito por extenso. O retrato completo do problema está no estudo sobre a crise da habitação; o controlo de rendas, aqui.
A calculadora compara dois futuros: um em que se continua a construir ao ritmo de 2024, e outro com o ritmo escolhido. O resultado é a diferença entre os dois, não uma descida face ao preço de hoje; esta forma de contar é nossa. A resposta dos preços vem do estudo de Ribeiro, Vilares e Carvalho (2025), que mediu, com os preços de transação dos concelhos portugueses, quanto mais baratas são as casas onde há mais casas, contando o efeito que se espalha aos concelhos vizinhos.
| 1 | Casas construídas a mais do que ao ritmo de 2024 | (50 000 − 28 494) × 10 anos | 215 060 |
| 2 | Menos a construção privada que a renda acessível desloca | 50 000 × 20% × 0 × 10 anos | 0 |
| 3 | Casas a mais no parque, em proporção do parque habitacional | 215 060 ÷ 5 970 677 | +3,6% |
| 4 | Efeito no preço médio (elasticidade −0,593) | (1 + 0,036)−0,593 − 1 | −2,1% |
| 5 | Em euros, sobre o preço médio de 2022 no estudo (1 632 €/m²) | 1 632 × 0,979 | 1 598 €/m² |
| 6 | Numa casa de 100 m², a preços de 2022 | 100 × (1 598 − 1 632) | −3 390 € |
| 7 | Taxa de esforço de compra (29,9% em 2022) | 29,9% × 0,979 | 29,3% |
| 8 | Casas de renda acessível | 50 000 × 20% | 10 000 por ano; 100 000 em 10 anos |
As casas a mais acumulam-se, e a diferença no preço cresce com elas, cada vez mais devagar. O gráfico mostra-a ano a ano para o ritmo escolhido na calculadora, com a margem de erro da elasticidade, ao lado do que daria construir todos os anos tanto como em 2002, o ano com mais casas concluídas na série do INE (125 708 na série de construções novas para habitação familiar, que em 2024 regista 24 666 e não as 28 494 do total, INE). Cada ponto é a mesma conta de cima, feita com o parque desse ano (Ribeiro e outros, 2025). Os autores escrevem que «only in a brief period in the 1990s was the country ever able to produce more than 80,000 new homes each year» (nota 9), o que não bate com os 125 708 que o INE regista para 2002. A diferença virá provavelmente de contarem coisas diferentes, mas não a conseguimos confirmar.
Preço médio face ao futuro ao ritmo de 2024
O mesmo estudo simulou outras mudanças sobre os preços de 2022, todas com o resto constante. Postas lado a lado com o cenário escolhido acima, mostram a escala de cada alavanca: duplicar o ritmo de construção dos anos 2000, que os autores descrevem como «at the very top end of what is conceivable», baixa o preço médio menos do que voltar ao número de alojamentos locais de 2015 (Ribeiro, Vilares e Carvalho, 2025).
Preço médio de 2022 em cada cenário, face ao observado
A leitura não é que construir não serve. É que, ao nível do país, o preço médio responde pouco ao número de casas, e que a mesma ordem de grandeza se consegue com medidas sobre a procura. Os autores juntam as duas coisas no cenário de mistura: com o ritmo de construção dos anos 2000, um teto de alojamento local de 10% das casas de cada concelho (o que, dizem, «would imply enacting restrictions in 13 municipalities») e menos 10% de residentes estrangeiros, o preço médio fica 6,2% abaixo, tanto quanto com o dobro da construção sozinho (Ribeiro e outros, 2025).
A pergunta pode fazer-se ao contrário: para o preço médio ficar uma dada percentagem abaixo do que seria, quantas casas a mais seriam precisas? A conta inverte a mesma fórmula (Ribeiro e outros, 2025), e o número de anos sai do ritmo escolhido na calculadora.
Para o preço médio ficar 10% abaixo do que seria, são precisas cerca de 1,16 milhões de casas a mais do que ao ritmo de 2024 (entre 817 000 e 2 milhões com a margem de erro). Ao ritmo escolhido, 21 506 a mais por ano, isso leva cerca de 54 anos. É mais do que os autores simularam: extrapolação. Conta nossa sobre Ribeiro e outros (2025).
Casas a mais do que ao ritmo de 2024, por descida pretendida
A média nacional esconde mercados muito diferentes. Os autores distribuíram as casas a mais pelos concelhos na proporção do que se construiu entre 2012 e 2022, e o efeito da construção sai maior à volta do Porto e menor em Lisboa. Os autores acrescentam que, com a escassez de terreno nos centros, o efeito aí seria ainda menor do que o modelo mostra. No cenário de mistura, a ordem inverte-se nos sítios com mais turismo:
Preço médio face a 2022, por região
| Preço médio face a 2022 | Dobro da construção | Mistura |
|---|---|---|
| Portugal | −6,2% | −6,2% |
| Área Metropolitana do Porto | −7,3% | −6,2% |
| Algarve | −5,9% | −9,4% |
| Área Metropolitana de Lisboa | −4,9% | −6,4% |
| Cidade de Lisboa | −4% | −11% |
Figuras 2 e 3 e texto de Ribeiro, Vilares e Carvalho (2025), manuscrito aceite. Os valores da cidade de Lisboa vêm do texto, arredondados pelos autores. O manuscrito não é coerente num ponto: o texto fala de uma descida máxima de 4% na área metropolitana de Lisboa no cenário do dobro da construção, a figura 2 dá 4,9%.
Ou seja, mais construção alivia sobretudo as periferias e as regiões industriais; nos centros de Lisboa e no Algarve, devolver casas do turismo à habitação pesa mais. Os autores concluem que uma política de oferta igual para todo o país «could be unfruitful» nas regiões mais procuradas, e é por isso que a calculadora não oferece um resultado por região: o estudo publica apenas estes.
Em Portugal, a mesma expressão cobre coisas diferentes, e só algumas acrescentam casas ao parque:
A calculadora só conta os três últimos, porque são casas novas: a quota é uma parte das casas construídas. No modelo do estudo português, uma casa de renda acessível pesa no preço médio tanto como qualquer outra, porque o modelo só conhece o parque total e não quem arrenda a quem (Ribeiro e outros, 2025). A dúvida é outra: uma casa pública ou subsidiada só é casa a mais se não ocupar o lugar de outra que o mercado teria construído. Nos Estados Unidos, Sinai e Waldfogel (2005, Journal of Public Economics; versão de trabalho NBER de 2002) estimaram que «three government-subsidized units displace two», com menos deslocação nos mercados maiores e com mais procura por servir; Baum-Snow e Marion (2009) encontraram deslocação da construção privada nos bairros em gentrificação, e não nos estáveis ou em declínio. As duas medições apontam em sentidos opostos nos sítios de maior pressão, e nenhuma foi feita em Portugal.
Por isso a calculadora deixa escolher. Com «toda», cada casa de renda acessível é uma casa a mais e a quota não mexe no preço. Com «um terço», a renda acessível tira à construção privada dois terços das suas casas, e a quota passa a pesar: a 50 mil casas por ano durante dez anos, com 20% de renda acessível, a descida no preço médio passa de cerca de 2,1% para cerca de 1,4% (conta nossa, sobre Ribeiro e outros, 2025, e Sinai e Waldfogel). A renda acessível pode baixar o que pagam as famílias que a recebem; o que a conta mede é só o preço médio do mercado.
Há também o que o preço não mede. Quando alguém se muda para uma casa nova deixa outra vazia, e a cadeia de mudanças pode chegar a bairros mais pobres. Em doze grandes cidades dos Estados Unidos, um prédio novo de mercado que aloja 100 pessoas leva, numa estimativa calibrada, 45 a 70 pessoas a sair de bairros abaixo do rendimento mediano, sobretudo em três anos (Mast, 2023); em Helsínquia, por cada 100 casas novas de mercado no centro (até 3 km da estação central), as cadeias de mudanças libertam cerca de 66 casas nos códigos postais da metade mais pobre (Bratu, Harjunen e Saarimaa, 2023). Em Portugal, esta cadeia não foi medida.
O estudo português mede preços de compra, não rendas. Para as rendas, há um estudo alemão: Andreas Mense (2025) aproveitou os atrasos de obra causados pelo mau tempo para ver o que acontece às rendas quando, num ano, se concluem mais casas do que o previsto. O resultado: «A 1% increase in new supply (i) lowers average rents by 0.19%». O 1% é do número de casas concluídas nesse ano, não do parque, e o efeito medido é o do primeiro ano; o próprio autor traduz o resultado numa «short-run demand price elasticity of −0.025». O número parece pequeno, mas em termos de parque é o contrário: na Alemanha, como em Portugal, as casas novas são cerca de 0,48% do parque por ano («The average annual new supply at PR level is 0.48% of the stock»), e por isso a resposta de curto prazo das rendas alemãs é muito maior do que a resposta de longo prazo dos preços portugueses.
Escalar esse número para Portugal dá um resultado que nenhum dos estudos sustenta. Passar de 28 494 para 50 mil casas por ano são mais 75% de conclusões; esticada em linha reta, a elasticidade alemã daria rendas cerca de 14% mais baixas logo no primeiro ano, quando a conta portuguesa dá cerca de 2% nos preços ao fim de dez (Mense, 2025; Ribeiro e outros, 2025). A distância pode vir de várias coisas que os dois estudos não separam: curto contra longo prazo, rendas contra preços, Alemanha contra Portugal, e um aumento de 75% muito acima das variações que Mense observou. Por isso a calculadora não usa a elasticidade alemã.
As medições do alojamento local variam muito: cerca de 8% em Lisboa, 2% em Los Angeles, e sem efeito detetado nas rendas em Santa Mónica. Em Lisboa, a proibição de novos registos em parte da cidade, em 2018, «decreases real estate prices by 8%, mostly in two-bedroom dwellings, for which the price drops 20%» (Gonçalves, Peralta e Pereira dos Santos, 2022, documento de trabalho). Em 18 cidades do condado de Los Angeles, as regras municipais cortaram os anúncios para metade e baixaram preços e rendas em 2% (Koster, van Ommeren e Volkhausen, 2021); em Santa Mónica, os anúncios de casas inteiras caíram 60% e o estudo não encontra efeito significativo nas rendas de longa duração (Chaves Fonseca, 2024).
Em Portugal havia 120 719 registos de alojamento local em dezembro de 2023, dos quais 74 972 entregaram declaração contributiva, com Lisboa, Porto e Albufeira à cabeça das declarações (Governo, 14-12-2023). Um registo pode ser um quarto ou um hostel, por isso estes números não dão uma proporção do parque. No modelo português, cada 1% a mais de capacidade de alojamento local sobe os preços 0,103% (Ribeiro e outros, 2025); para que voltar a 2015 dê −14,3%, a capacidade de 2015 tem de ser cerca de um quinto da de 2022 (conta nossa). Voltar a 2015 pesa mais do que duplicar a construção porque o alojamento local cresceu muito mais, em proporção, do que o parque cresceria.
Pela elasticidade medida nos concelhos portugueses, sim: dez anos a esse ritmo são cerca de 215 mil casas a mais do que ao ritmo de 2024, e o preço médio ficaria cerca de 2,1% abaixo do que seria, com tudo o resto igual (Ribeiro, Vilares e Carvalho, 2025). A construção entrega também o que o preço médio não mede: casas para quem hoje não as tem. Nos Estados Unidos e na Finlândia, as cadeias de mudança chegaram a bairros mais pobres; em Portugal não foram medidas, e os autores lembram quem duvide que os segmentos do mercado estejam ligados.
Sim. Casas a mais = (casas por ano − 28 494) × anos; proporção do parque = casas a mais ÷ 5 970 677; efeito no preço = (1 + proporção)−0,593 − 1. A elasticidade −0,593 é o impacto total de mais 1% de casas em todos os concelhos (Ribeiro e outros, 2025). Com 300 e 700 mil casas, a fórmula dá −2,9% e −6,4%; os autores obtêm −2,9% e −6,2%, sobre números que eles próprios arredondam. A diferença virá de os autores repartirem as casas de forma desigual pelos concelhos e de medirem o parque do continente em m², em 2022, enquanto a calculadora usa os alojamentos do país em 2021; é uma hipótese nossa. O código da calculadora está no fonte da página.
Porque o estudo português só o simula junto com outras duas medidas, no cenário de mistura (−6,2%), e o efeito separado não está publicado (Ribeiro e outros, 2025). Inventá-lo seria dar ao leitor uma precisão que ninguém mediu; o gráfico mostra os cenários tal como os autores os calcularam.
A conta funciona nos dois sentidos: abaixo de 28 494 casas por ano o resultado é um preço acima do que seria, pela mesma elasticidade (Ribeiro e outros, 2025). Os autores só simularam aumentos; para menos casas, a conta é extrapolação nossa.
A elasticidade (impacto total, com o efeito nos concelhos vizinhos; erro-padrão 0,117, de onde vem a margem de 0,36 a 0,82), os seis cenários, os resultados por região e a taxa de esforço vêm do manuscrito aceite de Ribeiro, Vilares e Carvalho, em acesso aberto no repositório da LSE, lido na íntegra a 18 de outubro de 2026, e confirmados na versão publicada na Regional Studies (vol. 59, n.º 1, 2025), lida na íntegra a 19 de outubro de 2026: todos os números usados aqui coincidem nas duas versões. O resultado de Mense foi lido no artigo publicado e na versão de discussão. As 28 494 casas de 2024 vêm do destaque do INE de 18-07-2025 e os 5 970 677 alojamentos do quadro Q305 dos Censos 2021. Os estudos sobre alojamento local, renda subsidiada e cadeias de mudança foram verificados no resumo ou no texto publicado. Todas as fontes foram consultadas a 18 de outubro de 2026.
A escolha de contar só as casas acima do ritmo de 2024 e a leitura de que a elasticidade alemã não se pode escalar são nossas. Ficou por verificar se a relação entre preço e parque se mantém para acréscimos maiores do que os que os autores simularam.